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WRunners

Como a corrida transformou Thaís em uma heroína

O esporte deu forças para a paulistana enfrentar o lúpus, o câncer e a depressão

Juliana MesquitaPor
Juliana Mesquita

Como a corrida transformou Thais (6)

Você já conheceu alguma heroína da vida real? Daquelas que tem uma história repleta de lutas e, mesmo com muitas adversidades, consegue uma grande vitória e torna-se exemplo de superação? Thaís Cássia, 30 anos, com certeza está nesse grupo de pessoas. Ainda jovem, a gestora de recursos humanos descobriu que tinha Lúpus Eritematoso Sistêmico, doença sem cura que causa fadiga, dores nas articulações, febres, manchas na pele etc. Quando já estava se acostumando a conviver com isso, Thaís descobriu um câncer no pescoço – que provocou nela um quadro de depressão, síndrome do pânico e outros problemas. “Teve um momento da minha vida em que estava tomando, ao mesmo tempo, cerca de 70 remédios. Precisei de muita força para não deixar a peteca cair e enfrentar todas as dificuldades. E uma coisa que me ajudou muito para conseguir isso foi a corrida”, afirma.

Os primeiros obstáculos
Apesar de não ser muito fã de exercícios, Thaís foi uma criança relativamente ativa. Até o sétimo ano do ensino fundamental, praticava ginástica olímpica, vôlei, handball… Porém, nessa época ela sofreu um acidente e fraturou o cóccix. Depois disso, a juventude dela foi completamente sedentária, muito por conta das dores que sentia na região. No entanto, ela assume que ficou feliz em não ter de praticar esportes – o que não foi nada bom para  a saúde e autoestima. “Ficar parada me deixou com sobrepeso, algo que lidei por muitos anos. Lembro-me de ir à praia e ver muitas garotas usando biquíni, e eu escondia o corpo com o maiô”, comenta.

A descoberta do lúpus
Aos 20 anos, Thaís se casou com Paulo. Algum tempo depois, os dois decidiram fazer natação. E foi durante a avaliação física para iniciar os treinos que Thaís percebeu algo estranho. “Eu precisava correr o máximo que conseguisse na esteira. Em apenas três minutos comecei a sentir uma dor muito forte no braço. O treinador alertou que aquilo não era normal.” Quase seis meses depois desse ocorrido e de muitos exames, a paulistana foi diagnosticada, aos 23 anos, com lúpus. Trata-se de uma doença autoimune, que pode comprometer a saúde das articulações, pele, rins, células sanguíneas, cérebro, coração e pulmões. Os sintomas variam entre fadiga, dores no corpo, febre, manchas vermelhas pela pele, falta de apetite, entre outros.

Embora não haja cura para a doença, é possível controlá-la e seguir com uma vida normal. “Foi um baque para mim, pois estava animada para realizar uma atividade física ao lado do meu marido. Porém, em vez de iniciar em um exercício, comecei um tratamento para lá de cansativo…”, comenta. Por conta do lúpus, ela passou a tomar corticoides e prednisona, medicamentos conhecidos por seus efeitos colaterais. Com Thaís, não foi diferente: o uso dos remédios causou inchaço e ganho de peso, fazendo com que sua qualidade de vida diminuísse consideravelmente.

Apesar dos desafios, ela começou a trabalhar em uma empresa em 2015. Lá, recebeu incentivo para participar de um grupo de corrida: o “ASMARunner”. Os primeiros meses foram só de caminhada. “Aos poucos, passei a correr um, dois, três minutos… Quando vi, já estava fazendo 10 minutos.” Não demorou muito para a gestora de RH participar de provas e se apaixonar pelo esporte. Só que, infelizmente, a alegria de Thaís não durou muito. No início de 2016, a corredora começou a ter sintomas como falta de ar e cansaço excessivo. Foi então que, após diversos exames, descobriu um tumor na tireoide, com metástase nos pulmões e na coluna

Como a corrida transformou Thais (4)Uma nova luta
Descobrir que estava com câncer não foi fácil, é lógico. Mas a paulistana não desanimou. Decidiu enfrentar a doença com todas suas forças, e a corrida foi um dos alicerces para mais essa grande superação. Durante o tratamento, Thaís continuou treinando e fez provas de 10 km, 15 km e até meia maratona. No dia 5 de março deste ano, ela completou a WRun São Paulo, sua última corrida antes da cirurgia para retirada do nódulo, realizada no dia 14 do mesmo mês.

Uma semana após a operação, a paulistana já estava fazendo caminhadas e, 40 dias depois, voltou a correr. “Agora que estou praticamente recuperada, sonho em completar minha primeira maratona. Tenho certeza que vou conseguir isso muito em breve.”

Uma grande virada
Depois de superar tantos obstáculos, Thaís quer mostrar para outras pessoas a importância que o esporte pode ter em momentos difíceis. “A corrida me deu não só força física, mas mental. Graças ao exercício, fiz muitas amizades virtuais e reais. Participo do grupo Divas que Correm e sempre nos encontramos nas provas, treinamos juntas, comemoramos nossas conquistas, aniversários…”

Como a corrida transformou Thais (2)O amor pela corrida tornou-se tão grande que agora vai virar sua profissão. “Depois de 18 anos trabalhando na área de recursos humanos, estou cursando o primeiro semestre de bacharelado em educação física. Dei um giro de 180º na minha vida. Quero levar a minha experiência, minha inspiração para outros portadores de doenças crônicas. Quero que eles possam ter esperança tanto no tratamento convencional quanto na atividade física, que promove uma melhora do quadro, seja ele depressivo, seja ele psicossomático.” Thais ainda complementa. “Tenho muita fé e não desisto. É possível continuar. Não faço nada de imprudente, sempre consulto o médico e tomo os remédios corretamente, além de ter muito apoio da minha família”, ressalta. Quando questionada sobre o que ela mais gosta na corrida, ela é direta. “O que mais gosto é a sensação de liberdade. Por um minuto, a gente sabe que pode conseguir, por mais que tudo fale que não é possível vencer. Superação é a palavra”, finaliza.